Ser forte para quê?
Dia da mulher, análise de uma pintura e dicas
Olá leitor! Ontem foi dia da mulher e, quase de última hora, mudei o tema da newsletter de hoje. Não gostaria de deixar passar a oportunidade de fazer essa reflexão. Hoje, vamos falar sobre a virtude da fortaleza a partir de uma pintura muito especial!
(No fim das contas, essa não é uma reflexão só para mulheres, então, se você for homem, fique por aqui também!)
Pegue seu café, sente-se e vamos pensar juntos sobre “ser forte”.
Nós, mulheres, ouvimos muito que temos que ser fortes e lutar. Às vezes, diante de tantas demandas, dá até vontade de chorar, mas vem aquele pensamento “preciso ser forte, não dá tempo de chorar”.
Mas, diante de tanto “seja forte”, surge uma dúvida:
O que é ser forte? É não chorar nunca? Não ser vulnerável? Ser inabalável? Não precisar dos outros?
Vamos mergulhar nessa reflexão olhando para a pintura Fortitude (ou Fortaleza), de Botticelli, 1470.
Contextualizando
Essa pintura faz parte de uma série que representa as virtudes e está localizada no Museu de Uffizi, em Florença. Tive a oportunidade de vê-las de perto e, certamente, essas pinturas foram as que mais me chamaram a atenção nesse museu. Quem sabe em outros textos eu fale sobre as outras virtudes a partir dessas belas obras!
Antes de começar a análise, quero deixar claro que ela foi feita a partir de uma observação muito pessoal, a partir das minhas reflexões e não de forma técnica. Então, vamos para alguns elementos que mais se destacaram para mim.
Uma armadura que não cobre tudo
Olhando atentamente a pintura, uma das representações que mais me chama a atenção é que a armadura não cobre toda a mulher, mas deixa de fora seu pescoço, suas mãos e a maior parte de sua roupa. Enquanto no imaginário geral poderíamos pensar numa pessoa forte como aquela completamente protegida ou blindada, Botticelli ousa nos mostrar uma figura quase que vulnerável.
Isso nos mostra que a virtude da fortaleza não está numa blindagem completa, como “nada me abala”, mas numa abertura ao mundo, ou seja, ser forte não é sobre fechar-se. Essa vulnerabilidade especialmente retratada pela pele exposta demonstra a humanidade daquele que pratica essa virtude. Em diálogo com isso, vamos para o próximo elemento.
Vestido gracioso
É interessante observar alguns aspectos da roupa que a mulher veste. Um deles, é seu vestido gracioso, com caimentos suaves e de cor branca. Essa leveza constrasta mais uma vez com a armadura. Devemos também ter em mente que os pintores renascentistas não escolhiam as cores aleatoriamente. Sendo assim, esses elementos junto ao branco expressam a delicadeza da mulher, o que não a faz necessariamente fraca.
Num âmbito psicológico, podemos interpretar que expressar emoções e sentir não são “coisas de gente fraca”, pois a virtude da fortaleza não exclui isso. Pelo contrário, essa virtude remete justamente a perseguir um bem árduo, mesmo com nossas vulnerabilidades. Quem busca essa virtude também deve conhecer suas fraquezas e saber que é necessário o esforço para alcançar o bem que deseja.
Manto vermelho
De uma parte, a delicadeza do branco; de outra, a vida e poder do vermelho. Essa última cor historicamente remete ao sacrifício, realeza e poder. Basta observar que, muitas vezes nas pinturas renascentistas, o próprio Jesus é retratado com um manto vermelho. O mesmo ocorre com a nobreza e outras figuras de autoridade.
O vermelho também era, em geral, um pigmento caro e valorizado. O que tem na nossa querida Fortaleza para merecer um manto dessa cor?
Podemos pensar em sua dimensão sacrificial. Um bem superior e difícil não se alcança sem sacrifício. O nosso próprio amadurecimento não é algo sem mérito. Muitas vezes, custa, exige passar por certos sofrimentos inevitáveis ou criativamente superá-los, quando possível — é quando a vida pede de nós a fortaleza interior. Quanto a isso, podemos pensar em outro elemento.
Postura reflexiva e olhar atento
A postura da mulher na pintura certamente não é de alguém que está a postos para uma batalha. Ela conserva uma postura reflexiva e um olhar atento. Como isso nos fala sobre ser forte?
A fortaleza não é viver na defensiva. Devemos cultivar essa virtude em nosso íntimo de modo que transborde em nossa vida através dos nossos atos e decisões. A fortaleza nos ajuda a manter-nos e sustentar-nos no bem. Assim, se há um para quê ser forte, há uma razão para que valha a pena.
Muitas vezes, um dos motivos para fraquejarmos em nossas decisões e propósitos é perdermos de vista o para quê estamos fazendo isso, mesmo que custe algo, mesmo que haja sacrifícios. É neste momento que entra essa postura e esse olhar atento.
Para aprofundar um pouco…
Uma das virtudes “filhas”, por assim dizer, da fortaleza é a paciência, que significa saber sofrer. O dr. Martín Echavarría nos diz o seguinte:
“[…] a fortaleza consiste sobretudo em resistir ao mal, antes que em acometer o bem árduo. Junto à fortaleza em sentido estrito está a virtude da paciência. Esta refere-se também à capacidade de resistir aos males, mas não aos maiores, e sim aos que cotidianamente se contrapõem à virtude.”1
Podemos ver, então, que a prática da virtude da fortaleza se dá em nosso cotidiano, nas lutas de cada dia. São aqueles pequenos sacrifícios, as pequenas renúncias, que nos tornam mais fortes para as grandes!
E voltamos ao início: o que é ser forte?
Bom, diante de tudo, diria que ser forte não é não sofrer, não sentir e ser inabalável. Tampouco é negar que se possui franquezas e vulnerabilidades. Mas é a capacidade que temos de perseguir um grande bem, mesmo com as dificuldades e os sacrifícios envolvidos.
Se temos valores bem definidos e sabemos o para quê das nossas atitudes e decisões, tenderemos a nos sustentar firmemente neles. Para concluir, deixo algumas perguntas para você responder para si mesmo:
Pelo que vale a pena ser forte, mesmo diante da dificuldade encontrada?
Qual é o “para quê” que me move, mesmo passando por certos sacrifícios?
Quais são os meus valores inegociáveis que me ajudam a me manter firme em minhas decisões?
Tenho paciência diante das pequenas contrariedades do dia a dia?
Para inspirar 🏹:
“Mas ele disse-me: ‘Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que o poder se aperfeiçoa’. Portanto, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo. Por isso, sinto complacência nas minhas enfermidades, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo, pois, quando estou fraco, então sou forte.” (2Co 12, 10)
“Quando se tem algum ‘porquê’, qualquer ‘como’ se pode suportar.” (Nietzsche)
Dois livros com protagonistas mulheres e o que eles nos ensinam:
Mulherzinhas (1868)
Este livro nos ensina muito sobre o amadurecimento através da vida das irmãs March: Meg, Jo, Beth e Amy. Nessa jornada, presenciamos casamentos, morte, amores novos, dúvidas, incertezas, novos planos, um olhar mais maduro sobre a vida, fortalecimento de amizades… É muito bom e eu estou até querendo reler.
Orgulho e Preconceito (1813)
Lendo este livro, vivenciamos um amor maduro sendo construído e a superação do orgulho e do preconceito. Para mim, esse livro se destaca pelo foco na construção do amor de duas pessoas que, a princípio, não dariam certo. Uma verdadeiro bálsamo para buscar um imaginário feminino saudável acerca de um romance.
Até a próxima, leitor!
Carla Millena
Livro: A Práxis da Psicologia e seus níveis epistemológicos segundo Santo Tomás de Aquino.









Excelente Ensaio